terça-feira, 12 de dezembro de 2017

NOVIDADES EDITORIAIS (135)

CRAPULE - Edição Dupuis. Autor: Jean-Luc Deglin.
Supomos que o sr. Deglin gosta de gatos... Gosta muito certamente, como Hergé, Geluck, Catherine Labey, Jim Davis, Otto Messmer, etc.
À sua maneira e com a sua arte e a sua ironia, criou este delicioso e encantador álbum, “Crapule”, com os encantos e as maravilhosas tropelias de um gatito preto que, como qualquer criança mamífera, detesta a solidão e se esparrama em traquinices que tanto nos irritam como nos encantam. (Àparte: eu/Luiz Beira, já convivi, a nível de gatos pretos e de penetrantes doces olhos de topázio, com os meus saudosos “Silvestre” e “Zambeze”; hoje, tenho o “Áton-Rá”...).
Este álbum tem muita paródia e muita ternura e tantos mais indicios para se amar, cada vez mais, os ditos gatos.
Mas, alto aí, amigo Deglin!... Chamar de Crapule (Crápula) a tão enternecedor gatito... é um insulto ao maravilhoso bichano! Porque não dar este nome às tarântulas ou às melgas?
De qualquer modo, indica-se, de um modo positivo e adorável, que este álbum tem uma mensagem especial e divertida para os amantes de gatos e também para aqueles que pensam adoptá-los...
Força, felinófilos! Salvé, deusa-gata Bastet!


EVE - Edição Casterman. Com argumento de Christophe Bec e arte gráfica de Jaouen Salaün, “Eve”, é o terceiro e último tomo da série “Eternum”... pelo menos, por um “primeiro ciclo”.
Apaixonante clima de ficção científica, as situações entranham-se fortemente ante a devida leitura.
A arte de Jaouen anima-nos plenamente, numa obra-série, que nela própria nos elucida: “No princípio, nós éramos imortais... mas os deuses retiraram-nos tal presente”.
E agora, leitores bedéfilos, sejam um tanto Lázaros ressuscitados, mesmo sem o milagreiro Cristo!...


LA JEUNE CAPTIVE - Edição Dargaud. Argumento de Raoule e traço e cores de Landa. “La Jeune Captive”, é o terceiro tomo da muito intrigante série “Arthus Trivium”, que bem nos apaixona, pois que, com todos os seus mistérios, envolve o famosíssimo médico-vidente Nostradamus, aqui com os seus três “prováveis”  discípulos: Arthus, Angelique e Angulus. Um estranho e corajoso clã a enfrentar as situações “diabólicas” do Mundo em rodagem...
Neste terceiro tomo se fina o “primeiro ciclo”, pois a série vai continuar...
LB

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

HERÓIS INESQUECÍVEIS (51) - RUSTY RILEY

Consoante os países e as publicações, foi tratado com outros nomes como Pedrito, Dick, Pepe, etc, sendo ele aquele adolescente simpático, prestável, leal e corajoso que, na verdade, se chama Rusty Riley, nascido a 26 de Janeiro de 1948, nos Estados Unidos da América do Norte, sob o talento gráfico de Frank Godwin (1889-1959) e argumentos de Rod Reeder (e depois, de Harold Godwin, irmão de Frank). A série terminou em 1959.
Frank Godwin (1889-1959)
Rusty Riley é um garoto órfão que foge do orfanato com o seu fiel amigo, o cachorrito "fox-terrier" Flip. Numa determinada herdade onde vai parar, é recolhido, empregue (e será um petiz protegido) pelo proprietário, um tal Sr. Miles, que cria cavalos, essencialmente para corridas.
Rusty rende-se completamente a este novo mundo e sonha, desde então, em tornar-se num jóquei por excelência... não faltando o seu puro e ingénuo namorico com Patty, a filha do patrão.
Há uma firme beleza na candura e ternura das aventuras de Rusty, que cedo galvanizaram os bedéfilos de várias partes do mundo. O ambiente das corridas de cavalos captaram em pleno os leitores, tanto mais que, para não haver um cansativo excesso de ingenuidade e/ou bravuras fáceis, também por estas histórias surgem aspectos de aventura policial, sobretudo avivados por vigaristas e corruptos.
Esta série começou a preto-e-branco, no formato de tiras diárias. Algum tempo depois, passou a ter também uma página dominical, agora a cores.
Tira a preto-e-branco onde é notável a excepcional arte de Godwin...
...e uma prancha dominical, a cores.
Consta que, muito discretamente, Bob Lubbers, também deu a sua achega para as tiras... Tudo e sempre, como produção da King Features Syndicate.
Uma nota especial referente a Frank Godwin: ele também desenhou famosos clássicos, como “A Ilha do Tesoiro”, “Robinson Crusoé”, “Rei Artur”, etc.
Em Portugal, estreou-se na saudosa revista “Diabrete” (do #537 ao #765), numa aventura com o título “Puro Sangue”, onde Rusty é tratado por Dick... Isto, de 1948 a 1950.
Duas pranchas de "Puro Sangue", aventura de Rusty Riley, aqui chamado "Dick",
in "Diabrete" #559 e #758 (1949/50) 
Prancha de "Puro Sangue", in "Diabrete" #612 (Maio/1949)
A partir de 1951, é também na saudosa revista “Mundo de Aventuras” que largamente continua a ser editado entre nós. 
Prancha de "Sir Percival, o Burlão", in "Mundo de Aventuras" #172 (27.11.1952)
Prancha de "Sir Percival, o Burlão", in "Mundo de Aventuras" #173 (04.12.1952)
Quatro pranchas de "A Intrusa", onde Rusty Riley se chamava "Pedrito", in "Mundo de Aventuras" #807
"Pedrito em A Mansão Assombrada" - capa de Carlos Alberto Santos,
in "Mundo de Aventuras" #829
Pranchas de "A Mansão Assombrada", in "Mundo de Aventuras" # 829

Mas não só, pois de um modo solto e com as correctas indicações do sítio “A Minha Biblioteca de Banda Desenhada”, a série foi também publicada em “Condor Mensal”, “Êxitos da TV”, “Condor Popular”, “Canguru”, “Águia”, “Colecção Audácia”, “Selecções do Mundo de Aventuras”, “Tigre”, “Ciclone” e “O Século Ilustrado”.
Rusty Riley em "Um Caso de Espionagem", in "Colecção Condor" Fascículo 20,
com capa de Vítor Péon.

Faltam, em Portugal, os álbuns com as suas aventuras, devida e atentamente compiladas cronologicamente. Mas isso.... Ele há coisas!

Nota: Agradecemos a colaboração de Paulo Viegas e de Carlos Gonçalves, que nos enviaram algumas das imagens que ilustram este post.
LB


"O Aventureiro", fanzine do Clube Português de Banda Desenhada,
dedicou o seu sétimo número a Rusty Riley (Abril de 2001)
Rusty Riley ("Pedrito") no "Mundo de Aventuras", com capas de Carlos Alberto Santos

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

NOVIDADES EDITORIAIS (134)

LA PESTE - Edição Casterman. Segundo a criação original de Jacques Martin, “La Peste”, é o 16.º tomo da belíssima série “Jhen”, que, estranhamente, jamais foi publicada em português (!!...). Este tomo tem argumento de Jerry Frissen e Jean-Luc Cornette e arte gráfica do já notável holandês Paul Teng.
E é mesmo o brilhante grafismo de Teng que aqui se sobressai. Admirável!
O arquitecto Jhen Roque e seu amigo Venceslas, são chamados para colaborar na reparação da sumptuosa catedral de San Nicola di Pellegrino, na cidade de Trani.
É aqui que Jhen reencontra o seu estimado amigo Rafael (ainda jovem, mas já famoso e que será o único personagem autêntico de todo este enredo). Don Saverio é o culto, paciente e humaníssimo governante de Trani...
Todavia, por aqui grassa uma onda mal escondida de anti semitismo, sobretudo da parte da empedernida e fanática esposa de Saverio. O ódio, beato e estúpido, impera sob as intrigas doentias da primeira dama de Trani. E os abomináveis crimes de sangue vão acontecer...
Como se isto não bastasse, a implacável peste toma conta da região.
Um belo tomo de Jhen, a não perder!



LE DÉCHU - Edição Soleil. Autores: argumento de Sylvain Cordurié, traço de Vukic Bojan e cores de Guillaume Lopez. “Le Déchu” (O Destronado) é o 10.º tomo da série “Oracle”, que voga pela sempre interessante Mitologia Grega.
Neste tomo, é o famoso Apolo que cai em desgraça... e tudo se complica nos antagonismos entre os deuses e, à boleia”, com os humanos a apanharem por tabela.
A Humanidade sempre inventou, via certa e oportunista classe social, as religiões (quase sempre inúteis...). Por exemplo: os judaico-cristãos-maometanos acham que Jeová-Deus-Alá, fez o Homem à sua imagem e semelhança (nota-se, não é?); os gregos, espertalhões admiráveis, inventaram os deuses à imagem e semelhança dos homens... Que irónica maravilha!
É por aqui que a amarga série “Oracle” nos sacode com muita pertinência.



LE PRINCIPE D’EISENBERG - Edição Casterman. Prosseguindo a série “Lefranc”, criada por Jacques Martin, aqui temos agora o 28.º tomo, com argumento de François Corteggiani e grafismo de Christophe Alves.
O enredo, bastante misterioso, está assente no “Princípio da Incerteza” do físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976), que, entre outros Prémios, recebeu o Nobel da Física em 1932. O seu “Princípio” foca as probabilidades (e perturbações) da Física Quântica...
Nem tudo o que parece, é!... E desta vez, o arrojado jornalista Guy Lefranc, por sua conta e risco, vai investigar crimes da espionagem e da contra-espionagem, passando ao lado da “certeza” dos outros.
Uma aventura invulgar no caminho das que Lefranc tem sofrido e vencido.



LES BATAILLES DE MOSELLE - Edição Casterman. Para a primeira parte (1870 e Primeira Guerra Mundial), o texto é de Marc Houver; para a segunda parte (a Segunda Grande Guerra), o texto é de Jean-François Patricola. O grafismo é de Olivier Weinberg e as cores de Emmanuel Bonnet.
Neste tomo ainda, um Prefácio de Patrick Weiten, antigo deputado e presidente do Departamento da Moselle.
Em relação a Guy Lefranc, este tomo faz parte da série paralela, histórico-didáctica, “Les Reportages de Lefranc”.
A zona de Moselle sempre foi um território de conflitos entre a França e a Alemanha. Conflitos, martírios e heroicidades admiraveis. São estes aspectos, de belo registo histórico, que aqui são marcados numa “reportagem” de Guy Lefranc.
LB

sábado, 2 de dezembro de 2017

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS - ARTE COM MUITA OFICINA (8)

Por: José Ruy

Na sequência do que tenho vindo a apresentar, verificámos como os desenhos originais de Harold Foster foram, em alguns casos, vítimas de cortes aleatórios e prejudiciais.
No entanto, outras publicações em livro apresentaram, de maneira exemplar, uma adaptação das vinhetas de Foster, isolando-as da narrativa gráfica e contando a história resumidamente, como um livro de texto acompanhado de ilustrações.
É o caso desta edição da «Treasure Books, Inc.», de New York, num formato
20 cm x 17 cm.
Retiraram pormenores às espetaculares vinhetas e transformaram-nas em ilustrações de página única ou dupla. O texto é resumido e simples. Neste caso apenas lhe encontro um senão.
Nas páginas duplas a lombada come uma parte do desenho. Nunca gostei de passar desenhos de página par para ímpar, por causa deste problema.

Também no Rio de Janeiro, Brasil, a «Rio Gráfica Editora» apresentou, quanto a mim pelo que conheço, a melhor adaptação desta obra em quadrinhos de Hal Foster, transformada em livro de texto com algumas ilustrações.
As figuras foram cuidadosamente destacadas dos fundos que as envolviam formando uma composição equilibrada, conseguindo um conjunto harmonioso, mantendo o ritmo da história contada em texto.

Há pelo menos sete volumes publicados desta série em 1955, no formato de 
25,5 cm x 16 cm, com 128 páginas cada, a preto e branco, tirando partido da retícula incluída por Harold Foster.

No nosso caso português, de uma maneira geral, quando estruturamos uma história não pensamos como ela poderá ser impressa, se a cor ou a preto, se só em livro ou também em jornal ou revista, ou ainda se o formato de uma eventual publicação irá obrigar a uma demasiada redução. Por isso trabalho desde há muito tempo com um esquema que permite essas hipóteses, tendo adquirido como lição o que observei nos norte-americanos.
José Ruy

terça-feira, 28 de novembro de 2017

NOVIDADES EDITORIAIS (133)

LES OISEAUX NOIRS / 2 - Edição Dupuis. Esta famosa editora belga, a Dupuis, teve o bom senso de festejar de um modo especial, os 70 anos do herói Buck Danny - no início sob a cumplicidade de Georges Troisfontaines e Jean-Michel Charlier, e a magnífica arte de Victor Hubinon. Vários autores se sucederam com esta tão popular série com aviadores de guerra, onde se destaca o inseparável trio Buck Danny, Jerry Tumbler e o divertido Sonny Tuckson.
Pois agora foi retomada e concluída, uma história que ficara incompleta e se pensava “perdida”... Mas não! Ela aí está em dois tomos: “Les Oiseaux Noirs”. Que obra! A União Soviética e os Estados Unidos da América, cada um por si, procuram dominar o mundo (serão os únicos?...), talvez através de uma bizarra guerra dirigida do nosso espaço próximo e planetário...
E depois? Isso agora, depende da vossa atenta leitura destes dois tomos, onde figuram como equipa construtora: Patrice Buendia, Frédéric Zumbiehl, André Le Bras, Gil Formosa e Frédéric Bergèse.
Ora viva!



 
LE SERMENT DU GLADIATEUR - Edição Casterman. Segundo a série original do saudoso mestre Jacques Martin, “Alix”, este é o 36.º tomo da dita cuja série, que já é de “culto” e era a preferida do mestre.
Este tomo tem argumento de Mathieu Bréda e arte gráfica de Marc Jailloux.
Para os “alixófilos”, este recente tomo é de agradável leitura, mas com melhor força no argumento de Bréda...
Assim: Alix e o seu inseparável Enak, vão até às zonas da actual Nápoles, onde reside Tullia, viúva, amiga e prima por afinidade de Alix. Este, aqui conhece o gladiador Acteus, conhecido como o “Lâmina-Serpente”, tal é a sua imbatível bravura na arena. Por estranhas conjunturas que o perseguem e amarguram, Acteus está sujeito a esta condição.
Alix, cedo se torna seu amigo e empenha-se em ajudá-lo.
No entanto, ambos vão ter de enfrentar as cruéis feitiçarias de Difsas, que desde a adolescência, ama e deseja, fanaticamente, o valoroso gladiador...



 
LA  COLÈRE DE POSÉIDON - Edição Glénat. Da maravilhosa série-colecção “La Sagesse des Mythes”, sob orientação de Luc Ferry, “La Colère de Poséidon”, é o primeiro dos quatro tomos versando “L’Odyssée” (A Odisseia) de Homero. Os responsáveis, são: Clotilde Bruneau e Didier Poli no argumento, Giovanni Lorusso no traço, Scarlett Smulkowski nas cores e Fred Vignaux como autor da capa.
O tema é bem conhecido e já teve várias adaptações, com mais ou menos rigor, ao Cinema e à BD.  Nesta nova versão à 9.ª Arte, já pelo primeiro tomo, logo nos encanta a arte do italiano Govanni Lorusso.
Odisseu, aqui tratado pelo nome latino Ulisses, após o fim da arrastada e terrível Guerra de Tróia, regressa enfim ao seu reino-ilha de Ítaca, mas... é a sua aventura-odisseia, que então começa...
LB

domingo, 26 de novembro de 2017

BREVES (50)

R.I.P. FERNANDO RELVAS
Faleceu, às 21:00 horas do passado dia 20 de Novembro (*), com 63 anos, Fernando Relvas, um dos autores portugueses mais importantes das últimas décadas.
Com obra vasta, merecem referência as histórias publicadas no jornal Se7e ("Niuiork", "Sabina", "Sangue Violeta", "Karlos Starkiller", etc) e nas revistas Tintin ("O Espião Acácio", "Cevadilha Speed", "L 123", entre outras) e Mundo de Aventuras ("O Controlador Louco", "O Povo de Ferro"). 
Publicou vários álbuns ("Çufo", "Em Desgraça", "O Nosso Primo em Bruxelas", "Karlos Starkiller", "Li Moonface", "Black Ship/Nau Negra", etc) e participou em inúmeras exposições.
Casou com a artista plástica Nina Govedarica, com quem foi viver, em 2003, para os arredores de Zagreb (Croácia). Regressou a Portugal em 2010, sendo que, nos últimos anos, problemas de saúde afectaram-no gravemente, culminando, infelizmente, no seu falecimento.
Fernando Relvas partiu demasiado cedo. Deixou-nos, contudo, uma obra vasta e de qualidade que fará com que a sua memória perdure no tempo.
Que descanse em paz!

(*) - dados rectificados à posteriori por José Ruy a quem agradecemos a deferência



REVISTA "CAMARADA" EM EXPOSIÇÃO
Inaugura na próxima terça-feira, dia 28, às 18:30, na Biblioteca Nacional de Lisboa, uma exposição dedicada aos 70 anos da revista "Camarada" (cujo primeiro número foi publicado a 1 de Dezembro de 1947).
A mostra, comissariada por Carlos Gonçalves e João Manuel Mimoso, resulta de uma parceria entre o Clube Português de Banda Desenhada e a Biblioteca Nacional, no seguimento de outras já realizadas.
Na exposição poderemos ver exemplares da revista e originais de ilustrações e pranchas BD de um conjunto representativo dos seus autores. 






SALON SOBD 2017







A sétima edição do salão SOBD 2017, em Halle des Blancs - Manteux, ocorrerá entre os próximos dias 8 e 10 de Dezembro, e terá como convidados de honra Edmond Baudoin e Philippe Sohet.
Com mais de 60 editoras e 150 autores presentes, a edição deste ano dá especial ênfase à banda desenhada suíça.
Mais informações podem ser consultadas aqui. 



TRAÇOS & TONS DE DANIEL MAIA
Uma exposição de ilustração e Banda Desenhada de Daniel Maia, pode ainda ser visitada até ao próximo dia 16 de Dezembro, na Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana / Bedeteca José de Matos-Cruz.
O horário é o habitual: de 2.ª a sábado, das 10:00 às 18:00.
Mais informação pode ser consultada aqui.





ANIVERSÁRIOS EM DEZEMBRO



Dia 01 - Joe Quesada (estado-unidense)
Dia 06 - Rafael Sales
Dia 13 - Leo (brasileiro) e José Carlos Francisco
Dia 15 - P. Trust Truscinski (polaco) e Carlos Zíngaro 
Dia 17 - Fabrice Néaud (francês)
Dia 24 - Mark Millar (escocês)
Dia 25 - Irene Trigo
Dia 27 - Luís Nunes
Dia 28 - Stan Lee (estado-unidense)

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

ENTREVISTAS (26) - RAFAEL COUTINHO (2.ª parte)

Concluímos hoje a publicação da entrevista iniciada no post anterior.


BDBD - Num jeito de paródia, abordaste “Mónica e Cebolinha”... O Maurício de Sousa não ficou chateado?
RC - Não... acho que ele não leu a história. Não tem tempo para isso. Mas o Sidney Gusman, que me convidou na época, é um cara muito bem humorado e inteligente e, de certa forma, todos ali gostam deste tipo de projecto e brincadeira.
Mónica e Cebolinha adultos, por Rafael Coutinho

BDBD - Afirmas-te mais criando em preto-e-branco e não com a cor. Tens alguma lógica pessoal por esta preferência?
RC - Encaro o preto-e-branco na Banda Desenhada como uma instituição cheia de expressões marcantes e históricas. Para a minha educação em artes, conhecer os trabalhos de Muñoz, de Milazzo ou o preto-e-branco de Jaime Hernandez, Katsuhiro Otomo, Tomaz Ott, Marjane Satrapi, Angeli, Crumb, foi como entender o mundo de outra forma toda vez. Há uma tradição aí, e quando passei a fazer quadrinhos de uma forma mais regular, sinto que sempre encarei isso como se tivesse me perguntando como eu entendia pontilhismo, hachura, luz e sombra, tons aguados ou o próprio tratamento digital dentro dessa tradição. Ao combinar essas técnicas, desenho realista, desenho solto, o que ficaria impreciso e o que puxaria para a abstracção, era como se eu estivesse me posicionando nesse meio, pedindo licença, me encontrando como autor... Mas adoro cor, pinto quadros, faço muitas histórias coloridas. É mais uma ferramenta, não sinto que evito essa. Mas o preto-e-branco foi e é um prazer à parte. Gosto muito.
"Mensur", álbum a preto-e-branco... com uma capa bem colorida

BDBD - Nota-se, de certo modo, uma linha dura e angustiante na tua obra. É assim que vês sempre a vida? Sem alegrias e optimismos?
RC - (riso) Puxa, acho que não!... São sistemas mais complexos do que isso, imagino. Tenho uma predilecção estética para o tratamento realista e uma educação artística que me direccionou para isso. Imagino que isso esteja conectado à forma como fui educado, vendo meus pais lerem certos livros, verem a vida de uma certa forma, filmes que vi na infância e adolescência, mas realmente, não teria como resumir isso tudo. No fim de contas, pouco importa, o facto é que sinto uma atracção muito forte por tragédias secas ou dramas onde uma certa “amargura” se impõe. Acho que conversa com um registo muito realista da vida, onde as desigualdades ocultam muita dor e dureza. E todas as histórias que mais me emocionaram e marcaram na vida tinham a ver com isso: roteiristas, directores e escritores com uma sensibilidade aguda para isso, uma coragem para expor aspectos das relações humanas que poucos têm.

BDBD - Em breves palavras, como defines a situação da Banda Desenhada no Brasil?
RC - Creio que esteja bem, passando por um momento de expansão em termos de quantidade de títulos e interesse tanto por editores quanto pelo público. O melhor da sua história, creio. Mas é difícil fazer essa avaliação sem levar em conta o tamanho do país e a proporção de leitores que realmente compram livros de BD no país. É baixo, se a média é de dois mil livros vendidos, para autores que publicam em editoras de pequeno e médio porte, num país com mais de vinte milhões de habitantes, e então ficamos deprimidos. Mas para quem anda acompanhando a produção intimamente nos últimos anos, é perceptível que há novos e ambiciosos livros circulando no país, e muito graças ao movimento independente de autores, que passaram a se auto-publicar e vender seus livros em eventos e feiras, outra frente que ganhou muita força nos últimos anos.

BDBD - A BD Portuguesa, mesmo minimamente, é conhecida no Brasil?
RC - Infelizmente não, e me pergunto porque não... Mas há mais projectos agora com o envolvimento de portugueses do que jamais houve. Paulo Monteiro foi aqui publicado. O roteirista André Morgado também apareceu nas livrarias e, na cena independente, já é possível participar em conversas onde Pedro Moura é citado, tal como Filipe Abranches ou Amanda Baesa. A Internet agrega um elemento meio  confuso aí, né? Todo o mundo conhece tudo e, mesmo que não seja uma entrada formal no mercado, os autores estão agora ali, a distância de um clique.

BDBD - Quando pensas voltar a Portugal... talvez pelo teu próximo álbum (qual é ele?...)?
RC - Ainda não sei dizer. Não tenho previsão. Tirei um ano para não fazer livros, mas este ano já está acabando. Ano que vem, volto com mais energia, provavelmente para fazer mais alguns volumes de “O Beijo do Adolescente”, série que venho fazendo há uns cinco anos. Há outras propostas em curso, mas nada de concreto.
Duas pranchas da série "O Beijo do Adolescente"

Obrigado, Rafael, por nos teres concedido esta entrevista.
Registamos, ainda, o nosso reconhecimento ao editor Rui Brito pelo apoio prestado.
LB